Precisamos transar

Originalmente publicado em meu antigo blog Lagom Rocks, em 2015.

Desde que a mudança de país se estabeleceu como um fato concreto na minha vida, tenho visto desfechos surpreendentes para muitos assuntos e resoluções que estavam abertos. Desde uma inscrição tardia na academia de ginástica até uma mensagem inesperada de uma pessoa com quem eu não falava mais, ando numa corrida ritmada contra o tempo. Assistir uma ópera em russo no Teatro Municipal de São Paulo [x]. Fazer musculação [x]. Consertar o sofá [x]. Escrever um livro [x]. Frequentar aulas de yoga [x].
A proximidade da mudança faz minha vida se movimentar como nunca. Nada como uma boa desculpa para finalizar projetos e “fazer coisas”. Mas nada se compara às surpresas que surgiram sem que eu tenha planejado.

Há meses atrás passei a fazer parte de um grupo de leitura atenta, encabeçado pela Julia Alqueres. Nos reunimos para ler textos em voz alta, às vezes um mesmo trecho repetidamente, e conversar sobre a experiência da leitura. Parece simples, mas ler pode ser tão dolorido quanto escrever. A cada duas semanas trabalhamos um autor novo. Passamos desde Toni Morrison até Guimarães Rosa, e nesses últimos encontros estávamos trabalhando textos de Vilma Arêas. Tratando-se de uma escritora de mão cheia e uma pessoa muito legal, a Julia conseguiu trazê-la em carne e osso para conversar conosco. E agora eu penso que não poderia ter despedida melhor do Brasil do que conmhecer essa senhora um mês antes de partir.

Além de estudar Clarice Lispector, a Vilma conviveu com ela – chegaram a fazer terapia juntas. Vilma tem uma vida e tanto, contou causos da época da ditadura, quando foi presa, com leveza e humor ácido – uma franqueza crua e desaforada que só uma carioca poderia ter. O nosso encontro me fez enxergar mais coisas sobre mim do que sobre ela; Vilma me ajudou a organizar os pensamentos. Quase uma infâmia da minha parte, pois nessa idade eu já deveria saber o óbvio: os mais velhos sempre sabem. Há muito tempo eu venho indagando a minha obsessão com listas – tenho listas para tudo: afazeres domésticos, atividades profissionais, contos para escrever, sentimentos que tive, motivos para continuar escrevendo, etc – e qual é o papel delas no meu processo de escrita. A despeito de tudo o que venho aprendendo com Umberto Eco na jornada das listas pela arte, Vilma chegou como um vendaval para sacudir minha alma e deixar apenas o claro e evidente: escrever organiza a cabeça.

As listas começaram a aparecer na literatura há muito tempo, ali nos poemas gregos, como uma aposta humana na possibilidade de enxergar as coisas à sua frente. A arte é uma tentativa de captar algo real, dentro de nós, em uma tentativa de guardá-lo em algum lugar seguro, de modo que possamos o visitar depois. Mas você não pode captar a realidade, nos disse Vilma. Toda memória é um segredo da nossa própria mente que criptografa as vivências com um segredo que ninguém mais pode decifrar. Salvo as listas práticas, de supermercado por exemplo, escrever é listar palavras que precisamos recordar na hora de botar no papel. Organizar coisas. Organizar nosso cérebro.

Em Um estudo em vermelho, Sherlock Holmes explica para dr.Watson:

“Para mim, o cérebro humano, em sua origem, é como um sótão vazio que você pode encher com os móveis que quiser. Um tolo vai entulhá-lo com todo tipo de coisa que for encontrando pelo caminho, de tal forma que o conhecimento que poderia ser-lhe útil ficará soterrado ou, na melhor das hipóteses, tão misturado a outras coisas que não conseguirá encontrá-lo quando necessitar dele. O especialista, ao contrário, é muito é muito cuidadoso com aquilo que coloca em seu sótão cerebral. Guardará apenas as ferramentas de que necessita para seu trabalho, mas dessas terá um grande sortimento mantido na mais perfeita ordem. É um engano pensar que o quartinho tem paredes elásticas que podem ser estendidas à vontade. Chega a hora em que, a cada acréscimo de conhecimento, você esquece algo que já sabia. É da maior importância, portanto, evitar que informações inúteis ocupem o lugar daquelas que têm utilidade.”

A despeito de não ser fã de Sir Arthur Conan Doyle, concordo com o raciocínio de Sherlock nesse trecho. Seria muito tolo imaginar que podemos guardar todas as informações em nosso cérebro. Para isso elas estão aí: as listas e a literatura.

Eu e minha pilha de diários sabemos. Toda vez que abro um deles, leio sobre algo que eu não fazia a menor ideia que já havia acontecido. Preciosidades. Imagino todos os tesouros que terei colecionado até os 90 anos.

Para mim, os poemas são o meio mais apropriado para guardar sentimentos, principalmente quando nos falta qualquer tipo de expressão de exatidão. Os versos são criaturas selvagens, de difícil previsão de comportamento. Não devem ser domados. Que nos devorem inteiros! Se você passar ileso pelo poema, temos problemas.
O poema geralmente me ataca num ponto entre o baixo ventre e o umbigo, uma pontadinha que dilacera a carne do corpo de fora a fora. Ou cai como um peso que faz minha alma descer para o pé, parafraseando Vilma. Ou me enche de calor, de um febre avassaladora. Poemas que adoecem me curam. Listas de sentimentos organizados para um coração cansado.

Enquanto conversávamos sobre poemas e o mercado editorial com Vilma, nos sentimos abismados com o fato de que ler poesia é também um ato revolucionário. Vai contra toda a política de expectativas desse século. Enquanto as pessoas esperam textos para serem lidos à pauladas, com precisão e rapidez, poemas são tiros de morte lenta, para serem apreciados devagar. Não há alma que se contente com poemas lidos como tiroteios, como se o livro fosse uma metralhadora. E Vilma respondeu nossas dúvidas com o óbvio, novamente: você tem que transar com o poema.

Fiquei com isso dentro de mim. Em uma rotina de muitos afazeres a cumprir, e listas para organizar, é preciso transar. Com o mundo, com tudo. Pausar a vida para sentir a vibração gostosa do prazer das descobertas, das conquistas. Na minha lista de “coisas para fazer antes de mudar de país” não há espaço espaço para transar com a vida.

O encontro com Vilma entrou para minha lista imaginária de “coisas que aconteceram sem que eu tivesse as listado”. A minha lista do indizível, do impreciso. Do desconhecido. A lista onde não há itens a serem assinalados, apenas fatos a serem adicionados com o único tempo a que pertencem: pretérito perfeito.

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