Dessensibilização & mindfulness

Há uns anos atrás, comecei a meditar para apaziguar o estresse no ambiente de trabalho. Àquela altura, já era bem normal ver pessoas do escritório se ausentando de cinco a dez minutos para um momento de meditação em salas organizadas para isso. À despeito de muita gente usar aqueles espaços para chorar no meio do expediente, acredito que a maioria de nós estava ali realmente praticando meditações guiadas de mindfulness com aplicativos caros (pagos pelo empregador). Às vezes meditávamos até em grupo, como um modo de aguentar a realidade brutal de estarmos dedicando oito horas diárias de nosso tempo para construir projetos que pouco ou nada traziam de bom para o mundo. Com o tempo me incomodei com a razão por trás do método do tal mindfulness e como ele é usado pelo ambiente corporativo. E passei a procurar outras formas de meditação (vipassana, montionless thinking, metta, etc), trazendo a meditação para outras áreas da vida e estudando suas origens. Desconectar a meditação de um objetivo concreto (ou da ideia de algo para fazer no tempo livre) para simplesmente apreciar a jornada fez toda a diferença.

O tempo livre não tem relação alguma com liberdade, mas com a ideia de reposição de forças e energia para o novo dia de trabalho que vem a seguir.

(Panoptismo, Flavia Cataldo)

Faz tempo que entro no youtube e o site exibe ads de animais sendo maltratados. Conheço o gemido do cachorro, o close de uma câmera escondida, a vinheta do PETA e os berros do burro agoniado que substituem o cachorro de vez em quando. Às vezes são porcos. São imagens e sons reais de animais sendo torturados; seja para virarem roupa, comida, para testarem cosméticos, para se reproduzirem à força, as razões são inúmeras e ainda sim são todas a mesma: servir a nós, humanos. Me irritava demais, para não dizer outras coisas. Mando ajudas financeiras constantemente para inúmeras organizações em prol da vida dos animais, parei de comer qualquer tipo de carne há onze anos e desde então venho numa descoberta de uma vida vegana sustentável. Aquelas propagandas não parecem ser para mim, eu já “comprei esse discurso”; e ainda sim, ali estão elas. O incômodo foi sendo substituído pelo desejo de finalmente assinar o youtube premium, só para não ver mais aquilo. Mas a ideia de ter que pagar para não ver sofrimento animal me doeu. E então, eu entendi. O ads era para mim, afinal.

Com o passar das semanas, fui me acostumando a passar por aquele pedaço de crueldade por 5 segundos antes de assistir o vídeo que uso para a prática diária de yoga. Curioso pensar que no ano em que fomos assolados por uma doença que ataca o sistema respiratório e mata as pessoas asfixiadas, eu aprendi a respirar. Eu, que comecei a prática da corrida alguns anos antes como forma de correr de coisas das quais eu não podia fugir de verdade, encontrei na minha cabeça – através da meditação – uma saída para a loucura que o isolamento trouxe. O yoga foi uma consequência de alongar essa experiência pelo resto do corpo. E assim como a meditação traz uma sensação de costume a todo tipo de pensamento ou imagem, o yoga me trouxe a aceitação real de vários sentimentos que me atravessam todos os dias.

Um dos momentos mais significativos de 2020 foi fazer fluxos de posições para lidar com raiva e ódio. Na minha ingenuidade de pessoa comum que nunca tinha praticado yoga por mais de 1 ou 2 meses até então, eu achava que sentimentos sombrios e furiosos como esses não faziam parte do corpo de quem pratica movimentos que trazem tanta leveza e suor. Mas me surpreendi com as “posições iradas” – é assim que as chamo agora – que na verdade fazem você sentir mais raiva do que você estava sentindo originalmente. É como se você abrisse o corpo para a ira te atravessar como um raio; mas diferente do raio, que dura um pedaço de segundo, essa ira te invade como um rio de corrente forte, largo, fluindo enquanto você se arrebenta de dor e suor por longos minutos com o movimento do corpo. Assim, com experiências como essa, fui aprendendo a deixar os sentimentos me atravessarem e me sentir confortável em me expressar com eles. Parece muito com o que acontece quando você começa a meditar e aquela máxima “deixa o pensamento passar” não faz sentido, pois você é puro pensamento, eles vem e vão incontrolavelmente. Respirar é pensar. Pensar é existir. Só depois de muito tempo que você entende como a cabeça abre espaço para que esses pensamentos, que não param de vir, escoam de um lado a outro sem que você se detenha em nenhum deles especificamente. É uma completude sincera, é o presente. E assim você realmente passa a entender como atingir estados reais de alteração de consciência (e às vezes o tal silêncio absoluto ou paz interior, seja lá o nome que cada um dá isso). Foi o que o yoga me ensinou sobre os sentimentos. Eles estão ali, eles fazem parte de mim.

E nessa pegada eu comecei a aceitar as imagens e sons horríveis nos ads do youtube. Mas diferente das práticas meditativas, eu não sosseguei com aquilo. O incômodo só cresceu, por muito tempo. Até que um dia, eu parei de me incomodar. E passei a me perguntar o quão cruel era me submeter a uma auto-dessensibilização das coisas. Eu não quero parar de ser sensível ao sofrimento desses animais. Eu não quero parar de me revoltar com a presença dessa propaganda específica na minha cara.

O anúncio do youtube funciona em vários níveis. Ele vem sob medida, direcionado por conta dos canais que eu assino – estudos sobre exploração animal, análises de discursos sobre direitos dos animais, receitas veganas – e pelo próprio ato de todos os dias assistir a um video de um canal de aulas de yoga. É mais do que claro para youtube que eu me preocupo com a causa animal. É um perfil onde eu me encaixo como uma luva. E as minhas opções são: clicar no botão de donate e mandar uma doação para o PETA através deles (o que provavelmente vai fazê-los me mostrar cada vez mais anúncios desse tipo), ou assinar o youtube premium e não ser mais incomodada por nenhum tipo de ads. A única saída para a situação é aceitar o incômodo e me dessensibilizar com os vídeos de animais torturados que me mostram todos os dias. É como o mindfulness das empresas funciona: faz você continuar aceitando em paz os sentimentos aterradores que o estresse no trabalho traz. É a normalização da falta de empatia. A anestesia compulsória por exposição.


Um dica: no meu computador, eu uso os adblockers (o navegador Opera já vem com um nativo bem bom). Mas costumo usar o aplicativo do youtube no celular para assistir o yoga e os adblockers não funcionam. Ultimamente, tenho tirado os fones e olho para outro lugar pelos 5 segundos antes do vídeo começar.

Uma outra dica: o canal de yoga que vem me fazendo companhia é o da Pri Leite, com muitos flows vinyasa.

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